Bistrô

Como nascem os elefantes

04 Mai 2011

Da série, “BISTRÔ PLANNING CONVIDA”, contamos novamente com a participação do amigo Luis Marcelo Mendes, ex-aluno, fundador da Tecnopop, hoje consultor e que está aqui com a gente, bebendo uma taça de Merlot ­ e fazendo ótimas provocações.

No muro do falecido Canecão há um banner enorme assinado pela AdUFRJ (Seção Sindical dos Docentes da UFRJ), o banner diz: “Cultura não é dinheiro. Não à privatização do ex-Canecão. Por um espaço cultural público e democrático“. A primeira reação, claro, é de desânimo com a lorota pré-glasnost que tem limo de tão velha. Mas logo depois a cabeça começa a pensar em termos de branding e são esses pensamentos que eu quero compartilhar com você.

No ano passado duas marcas tradicionais da cultura carioca encerraram suas atividades quase simultaneamente. A primeira foi a loja de discos Modern Sound, cujo negócio tinha se tornado deficitário demais numa época em que a posse de um suporte físico para a música não faz mais tanto sentido. O resultado foi uma choradeira enorme dos que tiveram sua formação musical na loja. Ou seja, a Modern Sound era uma marca forte, com uma causa legítima, no negócio falido. Partindo da definição da consultora Carol Scott de que “brand is an engineered perception made up of the name of an organization and the personality (organization’s products, services and perceived attributes) that goes with it“, se a loja tivesse flexibilizado sua marca para outros produtos e serviços afins da sua causa (formação musical, por exemplo), talvez não tivesse fechado.

Logo na sequência da Modern Sound veio a retomada do imóvel do Canecão pela UFRJ, briga jurídica de décadas. Curiosamente, com o fechamento dessa casa não houve choro nem vela. Ao contrário, o Canecão era uma marca fraca e sem causa. Em termos de marca, foi tiro de misericórdia no cavalo de pata quebrada. Mas fica a questão do que substituirá a casa. Onde se lê “por um espaço cultural público e democrático”, devemos entender “por um espaço irrelevante e indiferenciado”?

Essa é a grande questão que os gestores de instituições culturais públicas e privadas precisam se dar conta. O americano Stephen Weil, diretor de museus e membro ativo do Museum Management Institute durante 19 anos, sabia que essa conversa de cultura não é dinheiro é o maior princípio do imobilismo. Segundo Weil: “A museum may have a championship-caliber staff, a splendid building, superb collections, great management, great programs, great everything. But if it makes no difference to anybody, if it has no impact, if no good outcomes follow from what it does, then all it can be is a great, so what?: a gorgeous and resplendent wheel spinning prettily in the air.”

É claro que, onde se lê museus, você pode encaixar centros culturais, casas de shows, cinema, o que você quiser. O que me preocupa sinceramente é que em todo o Brasil, de Porto Alegre à Belo Horizonte e  Rio de Janeiro, novos equipamentos estão sendo lançados com grande preocupação com suas instalações e nenhuma com a engenharia da percepção de personalidade dessas instituições. No fundo, é assim que nascem os elefantes brancos. Combater isso é a minha razão de ser.


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