Bistrô

Rio, Carnaval e as Jacas

22 Mar 2011

DA SÉRIE “BISTRO PLANNING CONVIDA”. Luis Marcelo Mendes, velho amigo, ex-aluno, fundador da Tecnopop, hoje consultor, está aqui com a gente, bebendo uma taça de Malbec e fazendo ótimas provocações.

Será pertinente investir num projeto formal de branding para o Rio de Janeiro? Vocês já devem imaginar que não há consenso sobre o tema.  Há quem defenda que não há nada a ser criado, o Rio já é a marca. Sérgio Besserman, em sua palestra no TEDxRio falou sobre os ativos intangíveis da cidade e principal deles: a marca Rio de Janeiro, referência mundial em desenvolvimento sustentável. É uma visão possível como muitas outras. Mas, de fato, já que não temos uma tradição em construção planejada, a marca Rio não existe de forma consolidada. Ela é etérea, caracterizada por um monte de lugares comuns da “coisa carioca”.

A melhor explicação sobre a nossa relação com essa marca Rio, e de muito que acontece na cidade, está numa história contada pelo designer Índio da Costa. Um dia nas Paineiras, mostrou a um amigo italiano uma jaca espatifada no chão ao lado de uma jaqueira. Espantado com o tamanho da fruta no meio da estrada e sua respectiva árvore, o italiano perguntou na lata: “mas como vocês plantam isso?” O designer não sabia o que dizer. Quem sabe? Jaqueiras estão aí pela cidade, ninguém planeja uma produção ordenada de jacas. E então ele respondeu: “Jaca dá”.

O mesmo acontece com o Carnaval de Rua do Rio. Desacreditado há alguns anos, desbancado da soberania por outras praças nordestinas, ele renasceu sem combinação prévia. Jaca dá. Mas a cada ano que passa eu fico mais convicto que o Carnaval de Rua do Rio de Janeiro precisa de um programa de branding capaz de estabelecer valores positivos comuns, partilhados por quem quer participar dos blocos e quem não quer cair na folia. Produzindo um sentido claro tanto para quem é da cidade quanto para quem vem de fora.

Existem vários sintomas disso e o mais evidente, claro, é a questão do xixi. É um problema, mas não deveria ser uma questão, como disse o secretário Antonio Pedro Figueira de Mello. O foco nos mijões mostra o quanto estamos mesmo sem foco. O secretário de Ordem Pública, Alex Costa, na contramão, disse que a prefeitura estuda um projeto de lei para multar as pessoas flagradas urinando nas ruas. É muita energia no lugar errado.

Mais do que isso, a ausência de uma ideia comum em relação ao Carnaval de Rua leva às cizânias interpretativas. Entre aqueles que acreditam que a semana é de Baco mesmo (e a cidade tem que suportar as pulsões do desejo) e os que defendem a regulação legislativa ostensiva, a coibição, a desestruturação do espontâneo. Desnecessário dizer que ambos estão errados. O Carnaval de Rua é um fenômeno sensacional que traz, sim, uma série de problemas colaterais. Um projeto de branding, nesse caso, nos ajudaria a entender, nos envolver e realinhar o nossa relação com esse fenômeno a partir daquilo que ele tem de mais valioso, de mais virtuoso, de único e representativo da não formulada marca Rio.

Não tenho a menor dúvida de que o Carnaval de Rua do Rio, bem posicionado, pode ser compreendido internacionalmente como “the greatest party on earth”, que acontece nas ruas, para além do Sambódromo. A Meca das pessoas que buscam a felicidade mais acessível do mundo. Motivo de desejo global e de combustível para a nossa realidade para além de 2016. Assim como estou convicto que valores como “Respeito às diferenças” poderia ser um dos traços mais característicos nessa festa. Isso vale para os conflitos de gênero, de número e de grau. Respeito por quem não quer participar. Respeito aos homossexuais, às mulheres, ao patrimônio. Um programa de branding também colabora a entender se é coerente que o evento seja ostensivamente absorvido por uma marca de cerveja patrocinadora que, inevitavelmente, canibaliza os atributos de uma festa popular.

Há espaço para uma construção de uma marca verdadeira do Carnaval de Rua, junto com a Sebastiana, associações de bairro, artistas e Prefeitura. Principalmente porque temos muito mais em comum do que o noticiário momotemático parece caracterizar. E quando isso acontecer, as agressões à marca vão ficar mais evidentes e repelidas com serenidade. Evoé!

 

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